Representantes do governo e integrantes do Poli-LAC durante a assinatura do acordo de cooperação | FOTO: Divulgação |

Quatro municípios da Chapada Diamantina deram um novo passo para fortalecer a conservação dos insetos polinizadores. Mucugê, Ibicoara, Rio de Contas e Livramento de Nossa Senhora firmaram acordos de cooperação com o Projeto Proteção dos Insetos Polinizadores na América Latina e no Caribe (Poli-LAC), ampliando uma atuação que já vinha sendo desenvolvida diretamente com produtores e comunidades da região.

A parceria abre espaço para que os municípios recebam apoio técnico em áreas como educação ambiental, capacitação de produtores, infraestrutura e criação de instrumentos de políticas públicas voltados à proteção dos polinizadores.

Financiado pela Iniciativa Internacional para o Clima (IKI), do governo alemão, e implementado pela GIZ no âmbito da cooperação Brasil-Alemanha, o Poli-LAC atua em cinco países da América Latina e do Caribe: Brasil, Costa Rica, México, Paraguai e Peru. Na Bahia, a Chapada Diamantina foi escolhida como uma das paisagens-piloto do projeto pela sua relevância para a conservação da biodiversidade.

“Já vínhamos atuando no território com sensibilização sobre o tema e na implementação das PAIPs. Agora, com os acordos de parceria, o Projeto poderá ampliar sua atuação com apoio a necessidades apontadas pelos próprios municípios”, explica Lucia Maia, especialista do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) e supervisora do Poli-LAC no Brasil.

Da propriedade rural às políticas públicas

A atuação do Poli-LAC na Chapada já ultrapassa a sensibilização sobre a importância dos polinizadores. Trinta propriedades de pequenos e médios produtores de café e maracujá, além de uma propriedade de frutas vermelhas, foram selecionadas para participar do projeto e recebem assistência para implementar Práticas Amigáveis aos Polinizadores (PAIPs).

As medidas incluem ações como diversificação de cultivos, manutenção de áreas e plantas que oferecem alimento aos insetos, criação de abelhas nativas e redução dos impactos do manejo agrícola sobre os polinizadores.

Agora, os acordos com os municípios permitem levar essa experiência para uma escala maior. Entre as ações previstas estão capacitações para produtores sobre bioinsumos e manejo de pragas, atividades de educação ambiental, implantação de jardins e trilhas para polinizadores e instalação de estruturas para abelhas solitárias.

A cooperação também poderá apoiar os municípios na criação de leis, regulamentações e outros instrumentos de política pública relacionados à conservação dos polinizadores.

Um exemplo que já virou lei

Em Ibicoara, a parceria já produziu um resultado concreto na esfera municipal. O Poli-LAC apoiou tecnicamente a elaboração da Lei nº 434/2025, que instituiu o Programa Ciência Cidadã no município.

A legislação cria espaço para que moradores participem da produção de conhecimento e do monitoramento ambiental, valorizando tanto a ciência quanto os conhecimentos locais e tradicionais.

O apoio do projeto também se estende a novas propostas legislativas em discussão no município. Uma delas prevê o reconhecimento dos polinizadores como patrimônio natural de Ibicoara. Outra propõe restringir o plantio de espécies vegetais tóxicas que possam representar riscos aos insetos. A expectativa é que as duas propostas avancem até o próximo ano.

O caso de Ibicoara mostra uma das principais apostas do Poli-LAC: fazer com que a conservação deixe de ser apenas um tema de projetos ambientais e passe a integrar as decisões e políticas dos governos locais.

Uma região estratégica para a biodiversidade

A Chapada Diamantina reúne diferentes ambientes naturais, incluindo áreas de Caatinga, Cerrado, remanescentes de Mata Atlântica e campos rupestres, formando uma zona de transição entre biomas conhecida como ecótono.

Essa diversidade faz da região um território estratégico para a conservação dos polinizadores — e também para testar soluções que possam ser adaptadas a outros territórios.

Além da agricultura, os novos acordos abrem possibilidades de cooperação em áreas como meliponicultura, turismo rural, arborização urbana, controle de espécies invasoras e criação de áreas municipais de conservação.

Os municípios também poderão desenvolver viveiros para produzir mudas de espécies que forneçam alimento e abrigo aos polinizadores, ampliando a infraestrutura verde das cidades e das áreas rurais.

Conectar quem produz, quem pesquisa e quem governa

A estratégia do Poli-LAC é conectar diferentes atores para enfrentar um problema que não se resolve apenas dentro das propriedades rurais. Produtores, pesquisadores, comunidades e governos municipais passam a trabalhar de forma articulada para criar condições mais favoráveis aos polinizadores.

Na prática, isso significa transformar experiências locais em conhecimento, capacitação e políticas públicas — e criar condições para que as soluções testadas no território possam ganhar escala.

O Poli-LAC é financiado pelo Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Proteção Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN), por meio da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI), e cofinanciado pela União Europeia no Paraguai. No Brasil, o projeto é desenvolvido em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), a Rede Brasileira de Interação Planta-Polinizador (Rebipp) e outras instituições locais.

Ao aproximar produtores e governos municipais, o projeto dá um passo importante para que a proteção dos polinizadores seja incorporada de forma permanente à agenda ambiental e produtiva da Chapada Diamantina.