Entre morangos, café, maracujá e sistemas agroflorestais, uma experiência de conservação da biodiversidade vem ganhando espaço na Chapada Diamantina. Entre 24 e 27 de agosto, cerca de 50 pesquisadores, produtores, gestores públicos e representantes de instituições brasileiras e internacionais se reuniram na região para a quarta Oficina de Intercâmbio Regional do Projeto Proteção dos Insetos Polinizadores na América Latina e no Caribe (Poli-LAC).

Financiado pela Iniciativa Internacional para o Clima (IKI), do governo alemão, e implementado pela GIZ no âmbito da cooperação Brasil-Alemanha, o Poli-LAC atua no Brasil, Costa Rica, México, Peru e Paraguai. Na Chapada Diamantina, uma de suas paisagens-piloto, o projeto vem trabalhando diretamente com produtores para transformar conhecimento científico em práticas concretas de conservação.

Durante a oficina, os participantes visitaram quatro propriedades rurais em Mucugê, Livramento de Nossa Senhora e Rio de Contas, além de um meliponário e espaços de educação ambiental. As visitas permitiram conhecer soluções já em prática e discutir como ampliar medidas que beneficiam tanto os polinizadores quanto a produção agrícola.

Da pesquisa para dentro da propriedade

No Sítio Frutas Vermelhas, em Mucugê, o produtor Uvilson Santos Oliveira mostrou como a manutenção de flores nativas entre as áreas de cultivo de morangos, mirtilos e amoras ajuda a garantir alimento para os insetos ao longo do ano — inclusive nos períodos em que as culturas comerciais não estão florescendo.

A atividade também colocou os participantes em contato com o FIT Count, aplicativo de ciência cidadã utilizado para registrar e monitorar os insetos que visitam as flores. A ação foi coordenada pela bióloga Marina Wolowski, da Rede Brasileira de Interação Planta-Polinizador (Rebipp), responsável por atividades do Poli-LAC na Chapada.

A experiência mostra uma das frentes centrais do projeto: gerar dados e conhecimento sobre os polinizadores e, ao mesmo tempo, aproximar esse conhecimento de quem está no campo.

Na propriedade Licuri Experience, também em Mucugê, os participantes conheceram um sistema agroflorestal que combina café, cacau, açaí e outras espécies em uma área de um hectare. Cercas vivas, jardins, diversidade de cultivos, bioinsumos e seis colmeias de quatro espécies de abelhas nativas fazem parte da estratégia adotada na propriedade.

Em outra propriedade visitada, a Fazenda Matos, o café orgânico Igaraçu, produzido por Tadeane Matos sem agrotóxicos, integra o grupo de 30 produtores acompanhados pelo Poli-LAC na região. A propriedade passou pelo diagnóstico de sustentabilidade Apoia-Melipona, desenvolvido pela Embrapa e aplicado pela equipe do projeto.

A partir do diagnóstico, Tadeane planeja ampliar cercas vivas e bordaduras, implantar um corredor ecológico e criar abelhas nativas sem ferrão. A ideia é criar melhores condições para os polinizadores e, ao mesmo tempo, favorecer a produção de café.

Menos agrotóxicos, mais diversidade

O maracujá foi outro destaque da oficina. A cultura vem se expandindo na região, mas enfrenta um desafio importante: a fusariose, doença causada pelo fungo Fusarium oxysporum, que pode levar produtores a aumentar o uso de agrotóxicos.

Na comunidade Jacaré, em Livramento de Nossa Senhora, a produtora Andrea de Carvalho Bonfim apresentou uma alternativa em desenvolvimento em sua propriedade. Ela está implantando um jardim para polinizadores, pretende diversificar as cercas vivas e avançar para um sistema agroecológico com diferentes culturas.

Andrea também demonstrou uma técnica de enxertia entre Passiflora foetida e maracujá-azedo, que, segundo a produtora, aumenta a resistência da planta ao fungo. A experiência pode contribuir para reduzir a necessidade de agrotóxicos e, consequentemente, diminuir os impactos sobre os insetos polinizadores.

Em Rio de Contas, o projeto também chegou ao quilombo Bananal, onde três famílias aderiram à iniciativa. Uma delas é a de Adílio Domingos, produtor de maracujá, manga e pokã. Com assistência técnica do Poli-LAC, ele e sua mãe, Dona Maria, estão avaliando quais práticas amigáveis aos polinizadores podem ser incorporadas à propriedade.

Conservação também acontece fora da lavoura

O trabalho do Poli-LAC vai além das propriedades rurais. No Meliponário Bee Origem, em Mucugê, Marcos Adriano Rocha apresentou seis espécies de abelhas nativas sem ferrão. O espaço fornece e aluga colmeias para sistemas produtivos e também funciona como espaço de educação ambiental.

Outro exemplo é a Trilha dos Polinizadores, no Parque Municipal Sempre Viva. Criada em 2011 em parceria entre a Prefeitura de Mucugê e professores de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a trilha recebeu nova sinalização em 2026 com apoio do Poli-LAC, ampliando seu potencial como espaço de sensibilização sobre a importância desses animais.

Conhecimento que precisa chegar às políticas públicas

A oficina também serviu para discutir um desafio que vai além das propriedades: como transformar experiências locais em políticas públicas capazes de ganhar escala.

Representantes municipais, estaduais e federais, instituições parceiras e financiadores participaram de uma reunião sobre governança multinível, com discussões sobre regulamentação, capacitação, sensibilização da sociedade e do setor produtivo e fortalecimento de políticas de conservação.

Para Andreas Gettkant, diretor do Poli-LAC na GIZ, o intercâmbio entre os países e entre diferentes atores é fundamental para consolidar soluções que possam permanecer depois do encerramento do projeto.

“Esperamos chegar a 2030 com ricas experiências em cada paisagem-piloto, como a Chapada Diamantina, e com contribuições para os Planos de Ação Nacionais da Estratégia de Biodiversidade”, afirmou.

A aposta do Poli-LAC é justamente conectar essas diferentes dimensões: ciência, produção rural, monitoramento, educação ambiental e políticas públicas. O projeto atua em três frentes principais — gestão do conhecimento; fortalecimento da governança, das políticas públicas e de instrumentos de financiamento; e monitoramento e implementação de Práticas Amigáveis aos Insetos Polinizadores (PAIPs).

A urgência é evidente. Mais de 75% das culturas alimentares produzidas no mundo dependem, em alguma medida, da polinização por animais, enquanto a perda de habitats, o uso inadequado de agrotóxicos e as mudanças climáticas pressionam as populações de polinizadores.

Na Chapada Diamantina, o projeto já começa a mostrar como essa equação pode ser enfrentada no território: proteger os polinizadores não como uma atividade separada da produção, mas como parte de uma agricultura mais diversa, resiliente e sustentável.

O Poli-LAC é financiado pelo Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Proteção Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN), por meio da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI), e cofinanciado pela União Europeia no Paraguai. O projeto integra a cooperação Brasil-Alemanha e é supervisionado pela GIZ.

No Brasil, a implementação das Práticas Amigáveis aos Insetos Polinizadores e as ações de mobilização e sensibilização das comunidades da Chapada Diamantina são conduzidas pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), sob supervisão da especialista em sanidade, inocuidade e qualidade dos alimentos Lucia Maia.