No dia 4 de fevereiro de 2026, os projetos das interfaces na América Latina da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) organizaram o evento regional online “Mobilização de Financiamento Sustentável na América Latina e no Caribe (LAC)”, reunindo uma rede de quase 200 participantes para debater estratégias de escala para a ação climática e proteção da biodiversidade.

A abertura do encontro, conduzida por Sören Kirstein, diretor do projeto de interface IKI na Colômbia, destacou a força da presença da iniciativa na região, que atualmente conta com 102 projetos ativos na América Latina e Caribe, sendo 59 projetos na área de mitigação, 8 em adaptação, 25 em biodiversidade e 10 projetos sobre sumidouros de carbono. Sören enfatizou que o papel central das interfaces é justamente atuar como pontes para “evitar o trabalho em silos” e fomentar a criação de sinergias, promovendo o intercâmbio de conhecimento entre os 14 países foco (sendo Colômbia, Brasil, México, Peru, China, Costa Rica, Índia, Indonésia, Filipinas, África do Sul, Tailândia, Turquia, Ucrânia, Vietnam) da estratégia global da IKI.

A visão estratégica 2030 foi apresentada por Till Tibbe, assessor de política da IKI na Alemanha (BMUKN), que detalhou as metas ambiciosas da Estratégia IKI 2030. O grande destaque foi a meta de mobilização de 1,5 bilhão de euros em capital privado até 2030, utilizando mecanismos financeiros que incentivam investimentos e reduzem o risco para investidores terceiros.

Tibbe explicou que a IKI atua em duas frentes complementares para atingir esses objetivos. A primeira é a mobilização direta por meio do IKI Invest, realizada por meio de instrumentos financeiros como garantias, empréstimos sindicalizados e o fornecimento de capital júnior em tranches subordinadas (first loss). Um exemplo dessa atuação é o Emerging Market Climate Action Fund (EMCAF), para o qual a IKI contribuiu com 90 milhões de euros na tranche júnior. Esse aporte estratégico atua como uma proteção contra perdas iniciais, permitindo que bancos de desenvolvimento e investidores institucionais possam entrar em tranches seniores com maior segurança.

A segunda frente estratégica é a catalisação (“catalysed finance”), que foca na mobilização indireta de capital através de assistência técnica, pesquisas e desenvolvimento de pipelines de projetos. O objetivo aqui é criar as condições necessárias para que os projetos se tornem atraentes para investidores privados no longo prazo. Nesse contexto, Tibbe destacou o Programa NUCA (The NDBs Urban Climate Action), que conta com um aporte de 20 milhões de euros gerido pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). O NUCA foca especificamente no apoio a bancos nacionais de desenvolvimento e entidades urbanas para a preparação de projetos de infraestrutura climática, garantindo que as cidades possuam planos tecnicamente robustos e prontos para receber investimento.

Encerrando sua fala, o assessor destacou o papel transformador da Mitigation Action Facility (MAF), uma iniciativa que está evoluindo para apoiar veículos de blended finance e acelerar a implementação de medidas de mitigação em larga escala. Como um exemplo prático e bem-sucedido de impacto na região, ele citou o projeto PotencializEE, no Brasil. Focado no setor industrial, o PotencializEE apoia pequenas e médias empresas (PMEs) em São Paulo a realizarem investimentos em eficiência energética, fortalecendo a capacidade dos bancos locais em financiar essas transições. Devido ao seu alto impacto, com uma meta de evitar a emissão de 1,1 milhão de toneladas de CO2, o projeto está sendo escalado para outros cinco estados brasileiros, demonstrando o potencial da rede IKI em transformar assistência técnica em resultados climáticos mensuráveis.

O setor financeiro comercial trouxe uma perspectiva provocativa através de Markus Müller, do Deutsche Bank, que desafiou a ideia de que existe uma “escassez de capital” para a transição ecológica. Para Müller, o mundo enfrenta, na verdade, um problema de design e clareza de direção, pois os mercados globais são líquidos e inovadores, mas o capital não flui para a proteção do clima e da natureza devido à falta de planos críveis e regras previsíveis. Ele utilizou a analogia de que quando se quer construir uma casa “o arquiteto vem antes do banco”. Ou seja, o indivíduo só vai ao banco solicitar financiamento quando se possui um projeto sólido da casa, ou um “blueprint”. O caminho da transição é o Blueprint. Desta forma,defende que as instituições e governos precisam primeiro de um “blueprint”, ou um plano de transição baseado na ciência, antes de buscarem o financiamento bancário.

Müller foi enfático ao afirmar que “não temos uma escassez de capital; temos um problema de design. O capital não se move em direção a boas intenções, mas em direção a objetivos claros, planos críveis e regras previsíveis”.

A aplicação prática dessa estratégia foi demonstrada por projetos emblemáticos como o IKI BIOFIN, apresentado por Ana Orozco. A iniciativa trabalha para fechar a brecha financeira da biodiversidade, não apenas buscando novos recursos, mas realinhando gastos existentes, eliminando subsídios prejudiciais e transformando incentivos negativos em positivos. Orozco destacou o caso de sucesso do FINAGRO na Colômbia, que adotou uma rota de inovação para “reverdear” seu sistema de crédito agrícola, com a meta de que 100% de seus empréstimos sejam positivos para a natureza nos próximos anos.

O programa RAICES na Costa Rica é uma incubadora de turismo sustentável em territórios indígenas que já mobilizou cerca de 3,88 milhões de dólares, beneficiando empreendimentos liderados majoritariamente por mulheres.

No campo da transparência e governança, Mariana Rojas Laserna apresentou o impacto do projeto IKI LACADI, que atua no México, Colômbia e Peru. O foco do projeto é integrar os riscos climáticos nas decisões estratégicas do setor financeiro, utilizando o Ranking de Divulgação Climática como ferramenta de pressão positiva de mercado. Segundo Rojas, cerca de 80% das organizações na região ainda não integram efetivamente os riscos do clima em seu planejamento financeiro, o que torna a assistência técnica essencial para construir resiliência. Além disso, o projeto investe no que chama de “Liderança Climática Consciente”, trabalhando com mais de 100 membros de juntas diretivas para que a pauta ambiental suba ao mais alto nível de decisão das empresas.

A mobilização direta de recursos foi exemplificada por Paola Pedroza, do IDB Invest, que gere o fundo de 46 milhões de euros dedicado a alavancar capital privado na região através de blended finance. O fundo utiliza subsídios temporários para apoiar projetos de alto impacto que o setor comercial percebe como arriscados demais, como a primeira emissão de um título vinculado ao desempenho sustentável pelo Banco Davivienda na Colômbia. Outro projeto em execução citado por Pedroza é o financiamento de plantas de biogás no Chile, que ajuda a fortalecer a economia circular ao reutilizar resíduos orgânicos industriais.

Encerrando as apresentações técnicas, Christine Majowski apresentou o projeto IKI FAST (“Fast-tracking transformation through Sustainable Public Finance for Biodiversity”), que foca em finanças públicas sustentáveis. No Brasil, a iniciativa apoia o governo na implementação do Plano de Transformação Ecológica e no desenvolvimento da Taxonomia Sustentável Brasileira, uma ferramenta de classificação que define critérios técnicos claros para o que pode ser considerado um investimento ambiental e socialmente sustentável. Christine ressaltou que a taxonomia é fundamental para orientar tanto o setor público quanto o privado, estabelecendo objetivos claros para a proteção da biodiversidade e o uso sustentável das florestas no país mais biodiverso do mundo. Ela também apontou o apoio previsto do projeto a agendas como a Estratégia Nacional de Bioeconomia e Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais.

A síntese final do evento, conduzida por Miriam Velasco, da interface IKI no Peru, reafirmou que o principal desafio para a região não é a falta de recursos, mas a ausência de condições habilitantes, como marcos regulatórios estáveis e dados confiáveis para a tomada de decisão. O exercício interativo com os participantes confirmou que a cooperação entre a rede IKI e o setor financeiro se fortalece quando há acompanhamento técnico sustentado e alianças estratégicas. Velasco encerrou o encontro convidando todos a utilizarem as plataformas de gestão de conhecimento da rede, como o portal Panorama Solutions, reforçando que o caminho para escalar a mobilização de capital na América Latina passa pelo aprendizado conjunto e pela replicação do que já funciona no território.


Para mais detalhes: Veja a gravação do evento e as apresentações.