Pela primeira vez, mulheres que atuam pela conservação da natureza nos cinco biomas brasileiros — Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa — vão se reunir em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, para trocar experiências sobre geração de renda, conservação e enfrentamento das mudanças climáticas.

O Encontro Mulheres Interbiomas 2026, realizado nos dias 17 e 18 de setembro, integra o projeto Redes pela Conservação, uma iniciativa financiada pela Iniciativa Internacional para o Clima (IKI), do governo alemão. A iniciativa atua nos cinco biomas para apoiar a implementação dos Planos de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas (PPCDs) e contribuir para as metas brasileiras de redução das emissões de gases de efeito estufa e de desmatamento zero até 2030.

No Pantanal, o projeto é executado pela Ecoa – Ecologia e Ação, que também apoia a realização do encontro. Entre as frentes de atuação estão o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade e o apoio a negócios e iniciativas liderados por mulheres.

Mais do que reunir experiências, o encontro pretende fortalecer uma mudança de perspectiva: reconhecer as mulheres não apenas como beneficiárias de políticas de conservação. “É importante que as mulheres sejam entendidas também como produtoras de conhecimento, lideranças, tomadoras de decisão e protagonistas da conservação em seus territórios”, afirma Nathalia Ziolkowski, diretora-presidenta da Ecoa.

Conhecimento que gera renda e conserva o território

Uma das experiências que estarão representadas no encontro vem da Comunidade da Barra do São Lourenço, no Pantanal.

Leonida Aires, conhecida como Eliane, é pescadora, artesã e presidente da Associação de Mulheres Artesãs da Comunidade da Barra do São Lourenço (Renascer). Ela também integra a Rede de Mulheres Produtoras do Cerrado e Pantanal (CerraPan).

Eliane levará para Corumbá a experiência de mulheres ribeirinhas que transformam recursos naturais e conhecimentos tradicionais em produtos, renda e estratégias de conservação do Pantanal.

Entre essas iniciativas está o trabalho das artesãs que utilizam o aguapé, planta abundante na região, como matéria-prima. A experiência mostra como o uso sustentável da biodiversidade pode estar diretamente ligado à autonomia econômica das mulheres e à preservação dos conhecimentos das comunidades.

Para Nathalia Ziolkowski, iniciativas como essa ajudam a revelar uma dimensão que muitas vezes fica de fora das políticas de conservação: a relação entre a proteção da natureza e a vida cotidiana das comunidades.

“A conservação não acontece separada da vida das comunidades”, destaca.

Uma rede que conecta os cinco biomas

O encontro reúne cerca de 20 mulheres, incluindo lideranças quilombolas, indígenas e agricultoras familiares, além de representantes das organizações envolvidas no projeto.

Quinze lideranças foram indicadas pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Rede Cerrado e Rede Ecovida de Agroecologia, organizações que integram a iniciativa ao lado da Cáritas Alemanha. A diversidade de experiências permitirá comparar desafios e soluções desenvolvidos em diferentes paisagens brasileiras.

Um dos objetivos é construir, de forma coletiva, as diretrizes para o trabalho de justiça de gênero do Redes pela Conservação até 2031.

A estratégia faz parte de uma abordagem mais ampla do projeto, que busca fortalecer redes locais e conectar organizações, comunidades e políticas públicas para que a conservação e o uso sustentável da biodiversidade avancem junto com a geração de renda e a inclusão social.

Do debate à experiência no território

No segundo dia do encontro, a programação deixa a sala de reuniões e segue para a Área de Proteção Ambiental (APA) Baía Negra, em Ladário, a poucos quilômetros de Corumbá.

Criada em 2010, a unidade é a primeira e única unidade de conservação de uso sustentável do Pantanal sul-mato-grossense. No local, mulheres organizadas em associação desenvolvem atividades como produção de doces, artesanato e turismo de base comunitária.

A visita permitirá conhecer de perto iniciativas que combinam conservação ambiental e geração de renda e discutir como essas experiências podem contribuir para outras regiões do país.

Conservação com participação das mulheres

Ao apoiar redes que atuam diretamente nos territórios, o Redes pela Conservação busca fortalecer a implementação de políticas brasileiras de combate ao desmatamento e às queimadas sem deixar de lado as pessoas que vivem e trabalham nesses territórios.

A participação das mulheres é uma parte estratégica desse processo. Suas experiências ajudam a mostrar que a conservação da biodiversidade também passa por autonomia econômica, valorização dos conhecimentos tradicionais, fortalecimento das organizações comunitárias e participação nas decisões sobre o território.

O projeto Redes pela Conservação é realizado pela Cáritas Alemanha, Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Rede Cerrado e Rede Ecovida de Agroecologia, em parceria com o Governo Federal do Brasil, por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). No Pantanal, a implementação é conduzida pela Ecoa – Ecologia e Ação.

O projeto é financiado pela Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) do Governo Federal da Alemanha, por meio do Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN).